5.1.26

"Scanners - Sua Mente Pode Destruir” - David Cronenberg (Canadá, 1981)

Sinopse:
 Darryl (Michael Ironside) e Cameron (Stephen Lack) são scanners, frutos de uma experiência de laboratório que os dotou com a capacidade de ler e explodir mentes. Darryl decide criar um exército para conquistar o mundo e Cameron é o único com poderes para detê-lo.
Comentário: David Cronenberg (1943) é um cineasta canadense que capturou em seus filmes, por meio de um estilo único, as paranoias sociais e relacionadas ao corpo dos nossos tempos. Assisti dele os excelentes "Marcas da Violência" (2005), "Senhores do Crime" (2007), "Mapa para as Estrelas" (2014) e "Crimes do Futuro" (2022), os bons "A Hora da Zona Morta" (1983), "Crash - Estranhos Prazeres" (1996), "eXistenZ" (1999), "Um Método Perigoso" (2011) e "Cosmópolis" (2012) e o mediano "O Senhor dos Mortos" (2025). Desta vez vou conferir "Scanners - Sua Mente Pode Destruir" (1981).
Leonardo Campos do site Plano Crítico escreveu: "Em 1981, David Cronenberg já possuía mais prestígio dentro do espaço de produção cinematográfica. Os seus filmes respeitavam determinadas convenções narrativas 'autorais', originados de uma postura realizadora que buscou fazer diferente em um campo similar ao de produção hollywoodiana, mostrando-se refratário aos cânones impostos pela indústria, com produções que trafegavam na contramão do tradicional, numa atitude que lhe permitiu conquistar uma dimensão mais vasta de público, além de não ser unanimidade e permitir uma vasta abertura na recepção de suas obras, ainda reinterpretadas décadas depois de lançadas.
Desde 'Stereo', veiculado em 1969, o cineasta se empenhou em apresentar reflexões sobre a subjetividade das relações entre tecnologia e o corpo humano, tema que podemos observar em 'Calafrios', 'Enraivecida na Fúria do Sexo' e 'Filhos do Medo', as suas produções até 1981, temática expandida que percorre toda a sua carreira, em nuances diferenciadas, mas convergentes, sendo o frenético 'Scanners – Sua Mente Pode Destruir', uma das reflexões que representam esse campo de interação conflitante, isto é, a aproximação e a repulsa entre o homem e a máquina, o 'tradicional' e a 'nova ordem'.
Mas, afinal, quem e o que são os scanners? Capazes de interagir por telepatia e ocasionar o controle mental alheio, as figuras em questão possuem capacidades extra-sensoriais. Podem ler a mente, comandar atos alheios e até mesmo destruir pessoas fisicamente. Criados após uma experiência laboratorial que perde o controle, conflito dramático que embase boa parte dos filmes na carreira de Cronenberg, os scanners se unificam como uma organização terrorista, tendo como foco a quintessência da ficção cientifica: a dominação e o poder.
Também responsável pelo roteiro, David Cronenberg nos apresenta o mundo dos scanners em detalhes, 'criaturas' que conforme (…) mencionado, detém poderes telecinéticos e telepáticos incomuns. Uma corporação intitulada CONSEC busca incessantemente pessoas para as suas experiências e vai encontrar em Darryl Revok (Michael Ironside) uma espécie de 'herói da resistência maligna'. Renegado, Revok também é scanner, mas promove uma guerra contra as investidas da empresa. Para detê-lo, a CONSEC envia outro scanner, Cameron Vale (Stephen Lack), personagem que chega para estabelecer a 'guerra de titãs' ao longo dos 103 minutos de vastas cenas de ação, explosão e morte.
Ao acompanhar essa jornada que sai do discurso visceral direto para a o conflito mental no que tange aos processos de transformação dos indivíduos, somos informados que o Dr. Paul Ruth (Patrick McGoohan) desenvolveu experiências com ephemerol, um medicamento altamente perigoso injetado em mulheres grávidas. Tal como esperado, o procedimento traz terríveis efeitos colaterais, pois essa substância permite o surgimento de novos scanners, algo que faz aumentar as chances das estratégias de dominação organizadas por Revok, o 'malvado', contrário ao bondoso e ético Cameron, o scanner comandado a 'fazer a coisa certa'.
Aqui, a mutação da identidade não está exatamente na transformação do corpo de um ou mais indivíduos, mas na projeção no 'outro'. Numa leitura que faz o nariz do objeto de análise sangrar, os 'monstros' de 'Scanners – Sua Mente Pode Destruir' trafegam pela hibridização dos corpos pela via mental. O cérebro é o foco da narrativa, seu ponto nevrálgico. Dentre tantas cenas, a passagem com a virtualização da mente quando um scanner lê o conteúdo de uma ligação é deveras interessante e condizente com a panorâmica temática do filme focado na relação entre corpo, mente e máquinas. A personagem Kim (Jennifer O’Neill) cumpre a missão de interagir com o 'mocinho' no combate com o 'monstro', elo comercial para permitir maior adesão das plateias, nem sempre interessadas em tramas herméticas demais.
Esse espetáculo que promove o corpo e a mente como partes integrantes de uma guerra muito além do simbólico é orquestrado por um cineasta que flerta de maneira eficiente com a linguagem do vídeo, afinal, 'Scanners – A Sua Mente Pode Destruir' é um filme sobre a era do vídeo, bem como antecipação de questões abordadas em 'Videodrome – A Síndrome do Vídeo', sua realização subsequente, igualmente polêmica, complexa e com debates ainda muito atuais. Em suma: pertinente".
O design de som é de Peter Burgess, a edição é de Ronald Sanders, a supervisão de maquiagem e efeitos especiais é de Dick Smith, o design de produção é de Carol Spier e a direção de fotografia de Mark Irwin.
O que disse a crítica 1: Marcelo Müller do site Papo de Cinema avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Disse: "Como um filme ruim pode ser tão bom? É possível algo rudimentar e simplista ser, de fato, instigante e delicioso de assistir? (...) Quando há extremado talento, como no caso de David Cronenberg, até mesmo em realizações tortas abundam lampejos magistrais que teimam em contradizer chavões e obviedades. Alguns momentos geralmente não salvam o todo, mas em se tratando de 'Scanners: Sua Mente Pode Destruir', como ficar alheio, por exemplo, à visceralidade da ligação psíquica homem/máquina (premonição?) ocorrida em dado momento, e mesmo ao bloco final que, a despeito de sua inocuidade enquanto manifestação (e fraco justamente pela revelação 'sem peso'), traz inesquecível duelo psíquico, cujas maiores vítimas são, vejam só, os corpos?"
O que disse a crítica 2: Gabriel Paixão do site Boca do Inferno avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "O que torna 'Scanners' um grande filme é a complexidade dos personagens: nenhum deles é totalmente bom ou ruim, eles apenas têm motivações diferentes para seus atos, bem próximo da realidade. As interpretações são convincentes, com destaque para Michael Ironside, perfeito para o papel de Darryl Ravok, ficando difícil imaginar como seria outro em seu lugar. E a atmosfera de tensão criada por Cronenberg causada pela ameaça iminente de uma conspiração é outro grande feito do filme".
O que eu achei: David Cronenberg sempre demonstrou pouco interesse pelo horror como algo externo ou sobrenatural. Seus filmes preferem investigar o medo que nasce do cotidiano e da própria condição humana: a televisão, os automóveis, a ciência que corrompe a carne.  Em "Scanners – Sua Mente Pode Destruir" (1981), esse terror emerge da mente, mais especificamente de poderes parapsicológicos induzidos por medicamentos, transformando o inconsciente em uma arma imprevisível. A premissa é direta e perturbadora: indivíduos conhecidos como 'scanners' possuem a capacidade de invadir, manipular e literalmente destruir outras pessoas. Cronenberg trata essa habilidade não como dom, mas como maldição, uma força difícil de controlar e potencialmente devastadora. A famosa cena da explosão da cabeça, que se tornou ícone do cinema de horror dos anos 1980, funciona como uma síntese do que o filme propõe: a ideia de que o pensamento, quando levado ao limite, pode ser tão violento quanto qualquer arma física. No entanto, "Scanners" também revela algumas fragilidades. Apesar do sucesso comercial e do status cult adquirido ao longo dos anos, o próprio Cronenberg reconheceu problemas na narrativa. Isso fica evidente na condução do roteiro, que por vezes parece irregular no desenvolvimento dos personagens. A mitologia envolvendo corporações, experimentos médicos e conflitos ideológicos entre scanners é instigante, mas nem sempre bem articulada, dando a sensação de que o filme lança ideias mais interessantes do que consegue aprofundar. Ainda assim, há mérito na forma como Cronenberg articula temas recorrentes de sua filmografia: o medo da ciência fora de controle, a invasão do corpo e da mente, e a fragilidade das fronteiras entre o humano e aquilo que ele próprio cria. "Scanners" talvez não tenha a coesão narrativa de obras posteriores do diretor, mas já aponta com clareza sua obsessão pelo horror que nasce de dentro, um horror silencioso, cotidiano e inevitável. O filme fez tanto sucesso que ganhou duas continuações: "Scanners II: The New Order" (1991) e "Scanners III: The Takeover" (1992), ambas dirigidas por Christian Duguay sem o envolvimento criativo de Cronenberg. Quem viu, disse que ambas tem um apelo mais comercial, não chegando nem aos pés da do Cronenberg. Boa pedida.

4.1.26

"A Hora do Mal" - Zach Cregger (EUA, 2025)

Sinopse:
Numa noite qualquer, exatamente às 2h17 da madrugada, todos os alunos da sala da professora Gandy (Julia Garner) acordaram, fugiram de suas casas e sumiram, com exceção de um único jovem: o tímido Alex Lilly (Cary Christopher). Sem nenhum sinal de arrombamento, violência ou sequestro, a cidade inteira passa a exigir respostas – especialmente da professora - sobre o que pode ter acontecido.
Comentário: Zach Cregger (1981) é um comediante, ator e cineasta americano. Ele é membro fundador do grupo de comédia The Whitest Kids U' Know e estrelou as sitcoms "Friends with Benefits" (2011), "Guys with Kids" (2012-2013) e "Wrecked" (2016-2018). Ele escreveu e dirigiu dois filmes de terror: "Noites Brutais" (2022) e "A Hora do Mal" (2025), o primeiro filme que vejo dele.
Célio Silva do site G1 nos conta que " Alguns filmes de terror recentes como 'Longlegs', 'Fale Comigo' e até mesmo 'Pecadores' têm chamado a atenção pela boa mistura de gêneros, o que deixa o público intrigado e, ao mesmo tempo, fascinado com suas propostas. 'A Hora do Mal' (...) é mais um bom exemplo de que o gênero está numa fase bastante frutífera e não tão limitado a dar apenas sustos baratos. (...)
Ambientada na pequena cidade de Maybrook, a trama mostra o impacto causado entre os moradores quando 17 alunos de uma mesma sala de aula acordam numa noite ao mesmo tempo, saem de suas casas correndo e desaparecem misteriosamente. Inconformados, os pais passam a culpar Justine Gancy (Julia Garner), professora das crianças, pelo sumiço de seus filhos.
Em busca de respostas, ela começa a investigar o que está acontecendo na comunidade e o que estaria por trás do estranho desaparecimento. No caminho, ela busca pistas com Archer Graff (Josh Brolin), pai de um dos meninos desaparecidos, e Alex Lilly (Cary Christopher), a única criança que estudava na sala de Justine e que não sumiu no meio da noite, como seus colegas. Só que, durante sua procura pela verdade, ela vai descobrir coisas sinistras que estão muito além do que podia imaginar.
Uma das coisas que mais chama a atenção em 'A Hora do Mal' é a forma como o diretor e roteirista Zach Cregger, que ganhou bastante popularidade com o seu filme anterior, 'Noites Brutais' (2022), conduz seu mais recente projeto. Com uma estrutura que lembra bastante 'Rashomon' (1950), de Akira Kurosawa, e 'Magnólia' (1996), de Paul Thomas Anderson (algo que o próprio diretor confirmou em entrevistas), o longa conta a história do desaparecimento a partir de seis personagens. Assim, a trama começa pelo ponto de vista de Justine, passa para o de Archer, vai para o de Paul (Alden Ehrenreich), um policial que se envolve meio que sem querer nas investigações, e por aí vai. Contar mais pode estragar algumas das ótimas surpresas que o filme revela. (...)
Além da ótima direção e do roteiro exemplar de Cregger (que também co-assina a incrível trilha sonora junto com Hays Holladay e Ryan Holladay), 'A Hora do Mal' também se beneficia de um bom elenco, cujos maiores destaques vão para os protagonistas interpretados por Josh Brolin e Julia Garner. O ator Josh Brolin, mais conhecido do público jovem por suas participações em filmes da Marvel, como 'Vingadores: Ultimato' e 'Deadpool 2', transmite bem a revolta e o desespero pelo desaparecimento misterioso das crianças. Sem cair na caricatura, Brolin mostra a evolução de seu personagem, que sai de uma inércia nos primeiros minutos do filme para alguém disposto a tudo para descobrir o paradeiro de seu filho, mesmo que tenha que lidar com forças que não compreende totalmente. Já Garner tem um trabalho um pouco mais difícil porque sua Justine demonstra ter várias camadas à medida que a trama avança, tornando-a mais tridimensional. A atriz, que também entrou para o time da Marvel como a Surfista Prateada de 'Quarteto Fantástico: Primeiros Passos', convence em seus momentos de tristeza e dor por ser responsabilizada pelo sumiço de seus alunos e que, por isso, deixa alguns de seus demônios internos possuírem sua alma. Ao lado do personagem Brolin, numa parceria inusitada, ela também torna plausível sua busca pela verdade (e por sua inocência).
Outro destaque do elenco é o ator mirim Cary Christopher, que tem uma forte transição de uma criança alegre para melancólica após o misterioso evento em sua sala de aula. Ele tem diversas cenas em que precisa dar conta sozinho em momentos-chave da trama e se sai muito bem.
Vale ressaltar também a ótima participação da atriz veterana Amy Maddigan, que rouba todas as cenas em que aparece. Bennedict Wong como Marcus, chefe de Justine, marca presença por protagonizar um dos momentos mais perturbadores do filme".
O que disse a crítica 1: Guilherme Jacobs do site Omelete avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: "O segundo maior mérito de 'A Hora do Mal' é construir essa atmosfera sem se tornar pedante ou apelar para imagens chocantes feitas para emular a realidade, mas apostando no clima de tensão e incerteza para cumprir o objetivo. E digo o segundo maior mérito, porque não há como não celebrar o final deste filme como seu grande feito. Cregger encerra 'A Hora do Mal' com um espetáculo violento, uma sequência imprevisível que imediatamente se anuncia como essencial ao ser encenada, em que o fator surpresa se transforma numa satisfação visceral. É um tiro no alvo, na hora certa".
O que disse a crítica 2: Bruno Botelho dos Santos do site Adoro Cinema avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: "'A Hora do Mal' é um exame de nossa sociedade e o que acontece quando perdemos o controle. As 'Armas' – tradução do título original 'Weapons' – são aqueles problemas enraizados e que nos ferem coletivamente, sendo que as maiores vítimas são justamente as crianças. Estamos todos marcados e reféns".
O que eu achei: O filme começa mostrando o que a sinopse já adianta: são 2h17 da madrugada e 17 crianças saem de suas casas como se fossem sonâmbulas, seus braços estão abertos como se estivessem brincando de voar, a trilha sonora que embala a cena é Beware of Darkness do George Harrison. Apesar de trágica, a cena é lindíssima. Essas crianças desaparecem e a cidade vai precisar se mobilizar pra descobrir o que houve. Todas essas crianças são da sala de aula da professora Gandy interpretada por Julia Garner, num papel difícil que transita entre a linha tênue de uma jovem mulher frágil e delicada, mas que também é alcoólatra e sai com homens comprometidos. O filme é puro entretenimento. Dividido em capítulos que mostram como cada morador da cidade viveu aquele dia, vamos construindo um quebra-cabeça que vai chegar ao final com uma explicação plausível e bem amarrada, dentro de seu universo fantasioso onde o sobrenatural existe. Apesar de algumas especulações e até críticas, o longa é zero planfetário. Ele até chega a mostrar uma cena no qual o pai de uma dessas crianças vê no céu, em sonho, a imagem de uma arma - "Weapons", o título original do longa, significa "Armas" - nos lembrando os frequentes ataques que acontecem em escolas nos EUA, mas isso é apenas um devaneio paterno de alguém que dorme preocupado sobre o que teria ocorrido com seu filho. Então não espere nenhuma mensagem para a humanidade pois não é um filme com pretensões elevadas. Trata-se apenas e tão somente de um filme de terror bem executado, com um roteiro muito habilidoso, que vai te deixar 2hs intrigado ao mesmo tempo que tem passagens hilárias. Mais um ótimo filme de terror para se juntar à safra de 2025 e que poderá levar a atriz Amy Madigan a disputar o Oscar de Melhor Coadjuvante. A conferir.

2.1.26

“Malu” - Pedro Freire (Brasil, 2024)

Sinopse:
Malu (Yara de Novaes), uma mulher de meia idade com um passado glorioso, se vê presa em um caos existencial. A complexa relação com sua mãe conservadora (Juliana Carneiro da Cunha) e com sua filha adulta (Carol Duarte) torna a crise ainda mais aguda, em meio a momentos de carinho e alegria entre as três. Um retrato de uma mulher em busca da melhor versão de si mesma.
Comentário: Pedro Freire (1980) é um cineasta brasileiro, filho dos atores Malu Rocha e Herson Capri. Ele dirigiu 5 curtas-metragens além de 7 telenovelas e seriados. “Malu” (2024) é seu primeiro longa.
O site do IMS nos conta que “Malu é uma mulher com um passado glorioso na atuação, mas cuja carreira chegou ao ostracismo. Em um casarão em construção, afastado dos centros urbanos, vive com sua mãe conservadora e seu amigo Tibira. Eventualmente recebe visitas da filha. A complexa relação entre as três mulheres oscila entre momentos de carinho e ternura e rompantes de ressentimento e agressividade. No terraço de sua casa, Malu quer construir um teatro.
Livremente inspirado na vida da atriz paulista Malu Rocha, mãe do diretor Pedro Freire, Malu faz um agudo e nuançado retrato de relações familiares e de uma atriz afastada da profissão. (...)
Para seu primeiro longa-metragem, conta ao Jornal do Brasil: ‘Eu queria que meu primeiro longa fosse um filme inevitável para mim. (...) Então ali por 2017, aos 36 anos, eu decidi que tinha chegado a hora de tomar uma decisão: que primeiro longa seria esse? Então me conectei com as coisas mais importantes para mim, busquei o que seria tão profundo que só eu poderia fazer, e me encontrei com a pessoa mais importante e transformadora da minha vida, minha mãe, Malu Rocha. Digo com nome e sobrenome porque ela foi além de uma mãe, ela era mãe e ao mesmo tempo tinha uma persona, ‘a atriz Malu Rocha’, que ela levava para dentro de casa o tempo todo. E aquela personagem dentro da minha casa não era simples, porque ao mesmo tempo era difícil a distância – imagina que a sua mãe está sempre atuando – e também era fascinante, porque era uma personagem maravilhosa, inteligentíssima, humana, corajosa, culta. Enfim decidi que tinha que contar a história dela e entendi que a parte de sua história que mais me marcou foi o momento em que ela ficou mais isolada do mundo, dos amigos, morando com a mãe numa casa semiconstruída numa favela do Rio de Janeiro, sempre dizendo que queria voltar para São Paulo’”.
Mas quem foi Malu Rocha (1947-2013)?
1969 - Ela fez sua estreia nos palcos no Teatro Oficina, com a peça "Don Juan" de Molière, dirigida por Fernando Peixoto. O espetáculo seguia a linha diretiva de José Celso Martinez Corrêa.
Outros papéis no teatro:
1969 - "Hair", dirigido por Adhemar Guerra;
1971 – "Balbina de Iansã", dirigida por Plínio Marcos;
1972 - "Abelardo e Heloísa" dirigida por Flávio Rangel;
1979 - Ao lado do ator Herson Capri, à época seu companheiro, fundou a companhia de teatro Viagem Produções Artísticas, com a qual montou "Sob o Signo da Discotèque" (1979), de Plínio Marcos;
1982 – "Pegue e Não Pague" (1982) de Dario Fo;
1984 – " Um Casal Aberto Ma Non Troppo" de Dario Fo;
1988 – "Ladrão Que Rouba Ladrão";
1990 – "Boca Molhada de Paixão Calada" de Leilah Assunção;
2002 – "A Mancha Roxa" de Plínio Marcos, com direção de Roberto Lage, quando contracenou pela primeira vez com sua filha, Isadora Ferrite;
2010 – "O Interrogatório" dirigida por Eduardo Wotzik, com texto de Peter Weiss. O espetáculo narra o Julgamento de Frankfurt, o qual condenou nazistas pelos crimes de Auschwitz, e foi definido como ‘vigília cênica’ pelo grupo carioca Centro de Investigação Teatral, tendo sido apresentado em formatos de 24, 12 e 6 horas de duração.
No cinema:
1972 – "Geração em Fuga", dirigido por Mauricio Nabuco;
1977 – "O Crime do Zé Bigorna", dirigido por Anselmo Duarte;
1977 – "Mágoa de Boiadeiro";
1979 – "Bandido, Fúria do Sexo";
1984 – "Como Salvar Meu Casamento".
Na TV, Malu Rocha fez diversas novelas, entre as quais:
1975 – "Pecado Capital" (1975)
1977 – "Um Sol Maior";
1982 – "O Pátio das Donzelas";
1982 – "O Homem Proibido"
1983 – "Eu Prometo";
2007 – "Paraíso Tropical" (2007)
2008 – "Sete Pecados".
Malu faleceu em 7 de junho de 2013, aos 65 anos, por complicações em decorrência do mal de Príon - doença que atinge o cérebro. Seu velório foi realizado no Teatro Oficina.
O longa conta com as interpretações de Yara de Novaes, Carol Duarte, Juliana Carneiro da Cunha e Átila Bee. Depois de passar pelo Festival de Sundance, em janeiro deste ano, ‘Malu’ fez sua estreia brasileira no Festival do Rio, no qual recebeu os prêmios de Melhor Longa de Ficção, Roteiro, Atriz (para Novaes) e Atriz Coadjuvante (dividido entre Carneiro e Duarte).
O que disse a crítica 1: Guilherme Jacobs do site Omelete avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “Chamar Carol Duarte e Juliana Carneiro da Cunha de coadjuvantes é um desrespeito às atuações, e também ao interesse central de ‘Malu’. Duarte e Carneiro da Cunha são extremos de uma mesma linha, na qual Yara de Novaes é o centro, mas o filme de Pedro Rocha funciona porque entende cada uma dessas mulheres como pessoas reais, e encontra em cada relacionamento o combustível para tratar das diferenças e semelhanças entre as três. O que se perde de uma geração para a outra? O que acontece quando a anterior se decepciona com a geração seguinte, e vice-versa? Na família de Malu, temos as respostas”.
O que disse a crítica 2: Laura Machado do site Cinematório também avaliou com 4 estrelas. Escreveu: “A ficção criada por Pedro Freire como forma de homenagear a história de sua mãe é pessoal e repleta de singularidades. Porém, é também extremamente fácil para o espectador se conectar com a obra e enxergar sua própria vivência naquelas personagens. ‘Malu’ é um extravasamento que escorre do seio familiar e explode diante do mundo. É um retrato ficcional daquilo que é real”.
O que eu achei: "Malu" (2024), primeiro longa de Pedro Freire, é um filme profundamente íntimo e ao mesmo tempo universal, que transforma a experiência pessoal do diretor em matéria cinematográfica de rara sensibilidade. Livremente inspirado na vida de sua mãe, a atriz paulista Malu Rocha, o filme escolhe não fazer uma biografia tradicional, mas sim um recorte emocional: o período em que ela é obrigada a se isolar do mundo por problemas financeiros e já às voltas com os primeiros sinais de uma doença neurodegenerativa que mais tarde seria diagnosticada como Mal de Príon. Freire concentra a narrativa nesse momento de suspensão da vida, quando o tempo parece desacelerar e a existência passa a ser atravessada por perdas, impasses e silêncios. A personagem de Malu, interpretada com impressionante entrega por Yara de Novaes, vive em uma casa inacabada, sem reboco, numa comunidade do Rio de Janeiro. Esse espaço físico funciona como extensão de seu estado emocional: um lugar em permanente construção, instável, precário, mas ainda pulsante de desejo criativo. Ali, ela tenta manter vivo o sonho de transformar sua casa em um centro cultural, insistindo na arte como forma de resistência ao esquecimento e à marginalização. O roteiro evita explicações fáceis ou didatismos sobre essa doença rara, fatal e ainda pouco compreendida, e opta por sugerir seus efeitos por meio de lapsos de memória e mudanças de comportamento. Há menções indiretas à possibilidade de contaminação ligada à chamada carne da 'vaca louca', mas o filme não se interessa pela investigação científica em si, e sim pelo impacto humano da perda progressiva de controle sobre o próprio corpo e a própria identidade. Malu é retratada como uma mulher intensa, impulsiva, por vezes difícil, mas absolutamente magnética. Uma figura que vive no limite entre a lucidez e o excesso, entre o afeto e a explosão. A relação com a mãe conservadora e religiosa, vivida por uma extraordinária Juliana Carneiro da Cunha, revela camadas profundas de afeto, ressentimento e dependência, enquanto a presença da filha Joana, interpretada por Carol Duarte, introduz um contraponto mais jovem, afetivo e observador. Não à toa, o diretor já afirmou que essa personagem é uma amálgama dele próprio com sua meia-irmã Isadora Ferrite (roteirista, assistente de direção e realizadora), o que confere ao filme um tom ainda mais confessional. Chama atenção o cuidado em não transformar a trajetória de Malu em melodrama. Mesmo diante de uma doença devastadora, o filme aposta na contenção, no humor ocasional, na vitalidade contraditória de uma mulher que se recusa a desaparecer em silêncio. Também é significativa a decisão de nunca citar explicitamente os nomes reais de seus ex-maridos, entre eles figuras conhecidas como Zanoni Ferrite (ator, diretor e produtor teatral) e Herson Capri (também ator, diretor e produtor teatral), reforçando o caráter ficcional e subjetivo da obra. Para quem, como eu, guarda apenas uma lembrança vaga de Malu Rocha, o filme funciona como um reencontro tardio, uma espécie de reparação poética. "Malu" não tenta reconstruir uma carreira, mas compreender uma presença. E faz isso com delicadeza, rigor e uma profunda empatia. Ao final o que fica é a impressão de ter assistido a um retrato raro de uma mulher complexa, artista até o fim, capturada com respeito e amor pelo olhar do próprio filho. Um filme tocante, maduro e humano. Grande estreia de Pedro Freire na direção de um longa! Super recomendo.

"Homem x Bebê" – Rowan Atkinson & William Davies (Reino Unido, 2025)

Sinopse:
Perto do Natal, um caseiro atrapalhado chamado Trevor (Rowan Atkinson) precisa tomar conta de uma cobertura chique e ainda lidar com um problema inesperado: um bebê perdido.
Comentário: Trata-se de uma minissérie em 4 episódios com cerca de 30 minutos cada, que conta com o comediante Rowan Atkinson no papel principal.
Inês Policarpo do site SAPO MAGG nos conta que "Trevor Bingley está de volta - e com uma história que promete entreter todos os que gostam de uma boa comédia natalícia. Depois de conquistar o público com 'Homem x Abelha', Rowan Atkinson traz de volta seu personagem Trevor Bingley para a nova série (...) da Netflix 'Homem x Bebê' (...).
Aqui, depois da desastrosa experiência que teve como cuidador de uma casa em 'Homem x Abelha', Trevor Bingley decide que não quer mais trabalhar nessa área e passa a ser funcionário de uma escola, estando bastante entusiasmado com as férias de Natal para conseguir ver a filha, Maddy (Alanah Bloor), e a ex-mulher, Jess (Claudie Blakley). No entanto, a sorte do protagonista desaparece quando Jess lhe liga a dizer que não vão estar com ele, e sim com o seu novo e rico namorado.
Posto isto, Trevor, ao ver os seus planos serem alterados, decide ir ver a representação do presépio das crianças da escola onde trabalha, descobrindo aí que vai ser despedido - ou seja, sem família e sem trabalho, o homem não sabe o que fazer, e entre tudo o resto que tem a acontecer, tem ainda de coordenar os bastidores do presépio. É aqui que, então, tudo muda: um dos pais se esqueceu do bebê que fez de Jesus na manjedoura, ao mesmo tempo que Trevor recebe uma proposta de emprego.
Assim, aquela que seria uma entrevista serena para um próximo trabalho é agora um caos autêntico, com Trevor não conseguindo entregar a criança ao serviço social, partindo para Londres, onde tem a entrevista às 17 horas do mesmo dia, com o pequeno bebê.
A partir daí é o espírito natalício que toma conta da divertida narrativa, com o ainda desempregado a fazer de tudo para conseguir arranjar trabalho. Isto porque vai precisar de ajuda a pagar a faculdade de Maddy, cujas primeiras parcelas chegam às 10 mil libras.
Desta forma, fica a pergunta: com um possível apartamento de luxo para proteger com o novo emprego e um bebê para embalar para que não chore todas as horas, será que Trevor vai conseguir ter o Natal calmo que deseja ou tudo acabará num caos?
Com quatro episódios, 'Homem x Bebê' é assim uma série que promete trazer o espírito natalício com um toque de humor e diversão, e do elenco fazem ainda parte nomes como Susannah Fielding, Robert Bathurst, Ellie White, Angus Imrie, Sunetra Sarker e Nina Sosanya".
Ana Caroline Alves do site Bnews São Paulo nos diz que "Junto com o sucesso, surgiu uma dúvida entre os espectadores: afinal, as cenas com o bebê foram feitas com inteligência artificial? A resposta é mais complexa, e envolve uma combinação cuidadosa de bebês reais, efeitos visuais e tecnologia. Em entrevista à Little Black Book, o diretor David Kerr explicou os bastidores da produção (...). Segundo Kerr, a produção escalou dois pares de gêmeos idênticos. Um deles interpretou o bebê principal, enquanto o outro funcionou como substituto em cenas que exigiam movimentos mais específicos, como engatinhar. Na pós-produção, técnicas de substituição facial foram usadas para manter a continuidade visual. A tecnologia foi fundamental para complementar o que não podia ser filmado ao vivo. (...) Rowan Atkinson também comentou sobre a experiência, admitindo que filmar com bebês exige paciência e organização extrema".
O que eu achei: Depois do sucesso de "Homem x Abelha: A Batalha" (2022), a Netflix voltou a apostar na parceria entre Rowan Atkinson e William Davies com "Homem x Bebê" (2025), minissérie que retoma o personagem Trevor Bingley, o caseiro atrapalhado que parece sempre destinado ao caos. Se antes o embate era contra uma simples abelha, agora o desafio é cuidar de um bebê. A proposta, desde o início deixa claro que não há qualquer intenção de reinventar a comédia física ou surpreender com grandes reviravoltas narrativas. Com apenas quatro episódios de cerca de 30 minutos, "Homem x Bebê" funciona como um longa-metragem de duas horas, pensado para quem quiser ver tudo de uma vez só. A série aposta em um humor acessível, de situações, quedas, exageros corporais e expressões faciais, território no qual Rowan Atkinson, atualmente com 70 anos, segue absoluto, demonstrando pleno domínio do tempo cômico e da fisicalidade que o consagrou, equilibrando trapalhadas com momentos de genuína ternura. Mais do que uma sucessão de gags, a minissérie encontra espaço para um afeto discreto, quase ingênuo. É uma comédia natalina no melhor sentido do termo: leve, acolhedora, pensada para públicos de todas as idades. Por trás do humor simples, há uma mensagem clara sobre pertencimento, utilidade e a importância de criar vínculos, mesmo com pessoas (e situações) improváveis. Quem gostou de "Homem x Abelha" certamente encontrará aqui a mesma energia, agora temperada com ainda mais sensibilidade e espírito familiar.

1.1.26

“Arca de Noé” – Alois Di Leo & Sérgio Machado (Brasil/Índia, 2024)

Sinopse:
Tom, um guitarrista talentoso e pragmático, e Vini, um poeta romântico e sonhador, são uma dupla carismática e caótica de ratos. Quando o grande dilúvio se aproxima, apenas um macho e uma fêmea de cada espécie são permitidos na Arca de Noé. Tom consegue entrar, mas Vini fica para fora e vai precisar de uma boa sorte do destino para se juntar ao amigo.
Comentário: Ana Raquel Lelles do site Metrópoles nos conta que a animação foi inspirada por poemas de Vinicius de Moraes. Segundo ela, “o filme conta a história de Tom e Vini - em referência a Tom Jobim e Vinicius - uma dupla de ratinhos que embarcam na arca de Noé. A obra, que é um musical, tem canções dos discos Arca de Noé 1 e 2, do eterno Poetinha.
Dirigido por Alois Di Leo e Sérgio Machado, o elenco também é de peso: Rodrigo Santoro, Marcelo Adnet, Alice Braga, Júlio Andrade e Lázaro Ramos são os protagonistas. Outros artistas também dublam personagens, como Ingrid Guimarães, Adriana Calcanhotto e o casal Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso.
‘A ideia de levar ‘Arca de Noé‘ para o cinema veio da Susana, filha mais velha do Vinicius, ela procurou o Walter Salles e a mim com o desejo de transformar as canções e poemas que fazem parte do imaginário brasileiro há décadas, num longa de animação. Foi um sonho acalentado por nós durante anos. Quando ficou pronto, foi uma grata surpresa descobrir o quanto a poesia de Vinicius é internacional, já que o filme foi vendido praticamente pro mundo inteiro, incluindo países como Camboja e Vietnã’, comenta o diretor Sérgio Machado.
Machado destaca que essa é a maior animação brasileira já produzida com coprodução internacional. ‘O desafio de fazer um projeto à altura da obra do Vinicius nos instigou desde o início. Desde o começo havia uma vontade de fazer um filme o mais aberto possível, não poupamos esforços, foram mais de uma centena de animadores, no Brasil, Estados Unidos e Índia trabalhando para viabilizar o projeto’, afirma Sérgio Machado”.
A história da animação segue a base da trama bíblica da Arca de Noé, mas com algumas alterações. A principal delas são os protagonistas: os ratinhos Tom e Vini que, na proximidade de um grande dilúvio em que podem entrar na arca apenas um macho e uma fêmea, os dois tentam dar um jeito de sobreviver e entrarem juntos na arca, precisando ainda enfrentar o leão controlador Baruk. Em meio a isso, convivem com diversos outros animais e a busca por se manter um longo tempo no mar com pouca comida.
O que disse a crítica 1: Robledo Milani do site Papo de Cinema avaliou com 2,5 estrelas, ou seja, regular. Disse: “Se a dupla diminuta tinha tudo para ser o destaque em participações pontuais e envolventes, esse potencial logo se dissipa pela presença constante de ambos. (...) Em um elenco de dubladores gigante – e muitas vezes subaproveitado – quem consegue dizer a que veio é mesmo Lázaro Ramos (leão) e Alice Braga (como a menina Nina, o elo humano com os animais), seja pela experiência que demonstram na função, pela desenvoltura e trabalho criativo que empregam em suas vozes e pelas figuras curiosas que ajudam a criar”.
O que disse a crítica 2: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com o equivalente a 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Escreveu: “A animação representa uma tentativa importantíssima de estabelecer um filme do meio, capaz de dialogar com crítica e público, ou seja, de promover reflexão crítica enquanto diverte com acenos à cultura pop e à música brasileira. Os diretores (...) não ignoram nenhuma parcela da sociedade, compreendendo a necessidade de abraçar tanto os grupos modernos quanto os conservadores, tanto a cultura popular quanto a erudita, tanto a Bíblia quanto a comunidade LGBQTIA+”.
O que eu achei: Inspirado em poemas de Vinícius de Moraes e em canções dos discos Arca de Noé 1 e 2, o longa de animação dirigido por Alois Di Leo e Sérgio Machado propõe uma releitura livre e contemporânea da conhecida narrativa bíblica do dilúvio. A ideia de atualizar esse imaginário, mesclando música, humor e temas atuais como identidade de gênero e convivência é, em princípio, interessante e coerente com o espírito lúdico da obra de Vinícius. No entanto, o resultado final oscila entre momentos inventivos e outros menos envolventes, o que faz com que o filme funcione mais como uma experiência simpática do que propriamente marcante. A presença das canções dos álbuns é um dos pontos altos do filme, conferindo charme e certo apelo nostálgico à narrativa. Ainda assim, a adaptação opta por um tom bastante livre em relação à história bíblica original, o que acabou gerando forte reação de parte do público cristão. A transformação da arca em um espaço quase alegórico, a humanização e a  caricaturização de figuras tradicionais e o humor aplicado a temas religiosos foram vistos por alguns como uma descaracterização do texto sagrado. A polêmica se intensificou com acusações de que o filme conteria mensagens consideradas inadequadas por setores mais conservadores, especialmente às alusões feitas a questões de gênero e sexualidade. Embora essas leituras estejam mais ligadas a interpretações subjetivas do que a elementos explícitos da narrativa, elas ajudaram a alimentar um debate maior sobre os limites entre liberdade criativa e respeito à tradição religiosa. Nesse sentido, "Arca de Noé" (2024) acabou sendo menos discutido como obra artística e mais como objeto de disputa simbólica. Do ponto de vista cinematográfico, o filme é irregular. A animação tem momentos visualmente interessantes, mas também sofre com o ritmo instável, o que faz com que a atenção do espectador se disperse em diversos trechos. A proposta é charmosa, mas nem sempre consegue sustentar o encantamento do início ao fim.

29.12.25

“Na Presença de Um Palhaço” – Ingmar Bergman (Suécia/Dinamarca/Noruega/Itália/Alemanha,1997)

Sinopse:
Outubro de 1925. O engenheiro Carl Akerblom (Börje Ahlstedt), fervoroso admirador de Schubert, é internado em um hospital psiquiátrico em Uppsala. De seu quarto, ele alimenta o revolucionário projeto de inventar o cinema falado. Com a ajuda do professor "louco" Osvald Vogler (Erland Josephson), o diretor Akerblom improvisa uma história de amor contando os últimos dias de Schubert.
Comentário: Ingmar Bergman (1919-2007) é um diretor de cinema sueco famoso pela abordagem psicológica que ele dá a seus filmes. Sua produção engloba em torno de uns 60 filmes. Assisti dele 22 filmes, dentre eles as obras-primas "O Sétimo Selo" (1957), "Morangos Silvestres" (1957), "Persona" (1966), "O Ovo da Serpente" (1977) e "Sonata de Outono" (1978) e a minissérie “Fanny e Alexander” (1982). Desta vez vou conferir "Na Presença de Um Palhaço" (1997), uma produção feita para a TV sueca cujo título original sueco “Larmar Och Gör Sig Till” deriva de “Macbeth”, Ato V, Cena V de Shakespeare.
Luiz Zanin Oricchio do Estadão nos conta que o filme “começa em 1925 num hospital psiquiátrico, onde está internado Carl Akerblom (Börje Ahlstedt), acusado de haver espancado a noiva, Pauline (Marie Richardson). Na instituição, ele faz amizade com Osvald Vogler (Erland Josephson) e ambos decidem colocar em pé um projeto tido por delirante - fazer o primeiro filme sonoro da história. A data é importante. Em 1925, o cinema era novo e mudo. ‘O Cantor de Jazz’, tido como primeiro filme com falas e canto sincronizados, viria a público em 1927.
O expediente da dupla Akerblom e Vogler é engenhoso. O filme rodado por eles é projetado numa tela, de maneira convencional. Atrás dela, atores e atrizes dizem as falas dos seus personagens e tocam piano quando a cena exige. A história imaginada remete ao final da vida do compositor Franz Schubert, apaixonado por uma prostituta e descobrindo-se portador de sífilis. Obviamente, a morte espreita essa meditação sobre a vida, o amor e a arte. Ela toma o formato de um misterioso palhaço branco, que aparece em determinadas ocasiões. No making of [do DVD], Bergman explica que, na infância, os palhaços de circo o aterrorizavam. Sonhava com esse palhaço branco que, para ele, significava a morte de maneira bem concreta.
Mas o filme é, basicamente, uma reflexão afetiva em torno do cinema e do teatro, as duas artes exercidas por Bergman. O teatro foi sua primeira e última paixão. Na verdade, acompanhou-o ao longo da vida. Com o cinema, começou como roteirista até estrear em 1945, com ‘Crise’. Com o cinema, conheceu o ápice do seu reconhecimento internacional, pois arte da reprodutibilidade técnica, é ele que viaja e não o teatro. Ao morrer em 2007, Bergman foi saudado como um dos grandes criadores do século. Como falar dos anos 1900 sem lembrar obras como ‘Morangos Silvestres’, ‘O Sétimo Selo’, ‘Persona’, ‘Gritos e Sussurros’, ‘Cenas de Um Casamento’ e tantos outros?
No entanto, sentia-se em casa no universo do teatro. Já no final de ‘Fanny & Alexander’ declara seu amor a esse mundo acolhedor, quase uterino, ao qual iria voltar e se recolher, depois de achar que não tinha mais condições físicas para dirigir um filme. É do diálogo entre essa arte nova do século 20 (formalizada, pelos irmãos Lumière, em 1895) e a ancestral arte da representação que Bergman tira sua força única. Por isso, não surpreende o espectador atento o desenvolvimento de ‘Na Presença de Um Palhaço’, quando se constata que, na falência da técnica, a velha arte da representação pode ser exercida, com toda sua plenitude, mesmo em suas formas mais simples. Se em sua lucidez, Bergman não via nenhuma saída para o destino trágico do homem, era sempre pela arte que encontrava, se não uma reconciliação, pelo menos uma fresta de esperança. Pequeno clarão, a iluminar a farsa trágica de ‘Na Presença de Um Palhaço’”.
O que disse a crítica 1: Patrick Z. McGavin do Chicago Reader achou bom. Escreveu: “Embora ‘Na Presença de um Palhaço’ não tenha emoção visual, na melhor das hipóteses é uma meditação comovente sobre o nascimento da arte. Também funciona como uma vitrine para a brilhante companhia de atores de Bergman; são brincalhões e curiosos, demonstrando uma profunda necessidade de expressão e de faz-de-conta para lutar contra o isolamento e as restrições impostas. A música de Schubert, maravilhosamente interpretada por Kabi Laretei, está bem integrada”.
O que disse a crítica 2: JC do site A Janela Encantada disse: “Sempre com a presença fantasmagórica do palhaço, que espreita e que só Carl vê (a presença da morte?), Bergman parece caminhar entre uma homenagem aos primórdios do cinema e a sua preferência pela representação em palco, mais crua (note-se como Carl tem de lembrar aos espectadores o que deveriam ver no cenário), mas mais visceral e real. Era Bergman a mostrar o seu próprio caminho, de um cinema mais artificioso para os dramas de câmara e o teatro filmado do final da sua carreira, num filme em que a maioria dos personagens parece ligar-se a filmes antigos do realizador”.
O que eu achei: “Na Presença de um Palhaço” (1997) é um filme realizado originalmente para a televisão sueca e estruturado em quatro partes. Ambientado em um hospital psiquiátrico de Uppsala, em 1925, o longa acompanha a tentativa de realização de um filme falado em um momento de transição histórica do cinema, quando o som ainda era novidade. A proposta é curiosa: atores se reúnem para dublar ao vivo os personagens de um filme mudo, criando uma encenação híbrida que mistura teatro e cinema. Como em grande parte de sua obra, Bergman se interessa menos pela trama em si e mais pelas camadas simbólicas que ela permite explorar. Aqui, o diretor reflete sobre o ato de representar, dentro e fora do palco, e sobre a fragilidade da identidade humana, temas recorrentes em seu trabalho. O ambiente do hospital psiquiátrico funciona como metáfora para esse jogo de máscaras, em que sanidade, criação artística e delírio se misturam de maneira deliberadamente ambígua. O filme carrega um tom mais contido, quase teatral, o que reforça sua origem televisiva e o aproxima mais de uma peça encenada do que de um drama cinematográfico convencional. Não é uma obra tão impactante como outras que o diretor fez mas, ainda assim, é uma obra interessante, especialmente para quem deseja compreender melhor as inquietações tardias do cineasta e sua relação profunda com o teatro, a representação e o próprio ato de criar. Um filme bom e instigante.

28.12.25

"Depois da Caçada" - Luca Guadagnino (EUA/Itália, 2024)

Sinopse:
Alma Imhoff (Julia Roberts) é uma professora de filosofia da renomada faculdade de Yale. Ela ouve sua orientanda Maggie (Ayo Edebiri), uma aluna prodígio, acusar o professor Hank Gibson (Andrew Garfield) de estupro. O professor em questão é um grande amigo de Alma, ele afirma que a acusação é falsa, feita para acobertar o fato de que a aluna plagiou um trabalho. Professor e aluna não conseguem concordar em quase nada de suas versões da fatídica noite e deixam seus colegas divididos. Em quem acreditar?
Comentário: Luca Guadagnino (1971) é um diretor, produtor e roteirista de cinema italiano. Seus filmes são caracterizados pela complexidade emocional, o erotismo e os visuais suntuosos. Ele recebeu vários prêmios, incluindo um Leão de Prata, além de indicações ao Oscar e três prêmios BAFTA. São dele os filmes “Um Sonho de Amor” (2009), “Suspíria - A Dança do Medo“ (2018), “Até Os Ossos“ (2022) e “Rivais“ (2023), dentre outros. Assisti dele o ótimo “Me Chame Pelo Seu Nome” (2017) e o bom “Queer” (2024). Desta vez vou conferir "Depois da Caçada" (2025).
Laysa Zanetti do Estadão escreveu que o filme "é uma análise provocadora sobre o movimento Me Too e a 'cultura de cancelamento' de personalidades envolvidas em acusações de abuso ou assédio, dividindo opiniões e despertando controvérsias".
Ela nos conta que "O longa foi tema de debates após estreia no Festival de Veneza, e alguns críticos e jornalistas sentiram que a história era, de certa forma, datada e potencialmente prejudicial a mulheres. Segundo a Variety, uma jornalista presente na coletiva de imprensa, (...) disse que muitos participantes do festival sentiam que o longa 'revive velhos argumentos' usados para diminuir vítimas e não acreditar em mulheres que falam sobre assédio sexual. Questionada sobre a possibilidade de o filme ser prejudicial ao movimento feminista por 'descredibilizar' essas narrativas e denúncias, [Julia] Roberts alegou que a intenção é gerar debate. (...)
O espectador mais atento vai notar uma fonte familiar nos créditos de abertura de 'Depois da Caçada', uma letra usada por Woody Allen em alguns de seus filmes mais notórios. O uso não é apenas uma coincidência. A fonte foi escolhida de forma proposital, assim como os primeiros minutos do filme, que reprisam um estilo comum ao cineasta de 'Noivo Neurótico, Noiva Nervosa' (1977). Allen, vale lembrar, foi acusado de abusar sexualmente de sua filha adotiva, Dylan Farrow, quando ela tinha sete anos. O diretor sempre negou as acusações, e foi considerado inocente. Guadagnino confirmou as referências a Woody Allen na mesma coletiva de imprensa em Veneza. (...) As acusações contra Allen foram feitas pela primeira vez em 1992, e as investigações não encontraram provas contra o cineasta. Mais tarde, já adulta, Dylan voltou a fazer alegações. Desde o auge do movimento Me Too, a reputação do diretor foi prejudicada, e ele enfrenta dificuldades para conseguir financiamento para seus filmes. (...)
Os singelos 42% de aprovação no agregador de críticas Rotten Tomatoes indicam o quanto a imprensa está dividida quanto ao resultado deixado por 'Depois da Caçada'. Embora o filme consiga capturar a complexidade desejada por Guadagnino, muitos analistas acreditam que se trata de uma provocação esvaziada e verborrágica".
O que disse a crítica 1: Guilherme Jacobs do site Omelete avaliou com 2 estrelas, ou seja, regular. Ele disse: "'Depois da Caçada' tropeça em sua própria história de #MeToo" e o "filme (...) não tem curiosidade suficiente sobre seus próprios debates". Escreveu: "Se a abertura de 'Depois da Caçada' ainda se empresta aos instintos de diversão perversa do diretor, que por tabela nos envolve um fascínio mórbido por figuras questionáveis, quando entramos neste território mais escorregadio, Guadagnino precisa guardar suas facas. Seja por não saber como encarar o material, ou, francamente, por não acreditar que as ideias discutidas no roteiro não são tão apetitosas quanto (...) ver Julia Roberts bem-vestida e olhando com tesão para Andrew Garfield, também bem-vestido".
O que disse a crítica 2: A crítica Alissa Wilkinson do New York Times, achou o filme desconfortável, mas pelos motivos errados; parecia que um roteiro melhor havia sido simplesmente grampeado a um comentário político, embora algumas ideias interessantes sobre filósofos versus psicoterapeutas tenham surgido. Apesar das falhas, ela considerou que "vale a pena assistir".
O que eu achei: Existe uma citação atribuída ao chanceler alemão Otto von Bismarck que diz: “As pessoas nunca mentem tanto quanto depois de uma caçada, durante uma guerra ou antes de uma eleição". É dessa máxima que nasce o título “Depois da Caçada”, filme de Luca Guadagnino que se estrutura justamente em torno da pergunta central: quem está dizendo a verdade? A aluna que acusa o professor de abuso ou o professor que afirma ser vítima de uma falsa denúncia usada para encobrir um caso de plágio? A história se passa em Yale, no departamento de filosofia, e tem como eixo a figura da professora Alma Imhoff (Julia Roberts), chamada a ocupar o papel incômodo de juíza moral da situação. A aluna acusadora é sua orientanda; o acusado, seu melhor amigo. Soma-se a isso um trauma mal resolvido do passado da própria Alma - um episódio de assédio que ela mesma jamais conseguiu compreender plenamente - e o terreno está armado. O filme nos coloca diante de um impasse ético em que não há acesso à verdade factual, apenas versões e percepções. Uma das grandes qualidades do longa é justamente sua capacidade de manter a atenção do espectador durante mais de duas horas. O roteiro é verborrágico, denso e exigente, mas nunca disperso. Cada diálogo parece carregar peso e cada detalhe pode ganhar relevância mais adiante. O trio protagonista formado pelos atores Julia Roberts, Ayo Edebiri e Andrew Garfield entrega atuações muito sólidas, equilibrando contenção e tensão emocional com precisão. A trilha sonora, por outro lado, é um elemento mais ambíguo. Embora a seleção musical seja sofisticada e inclua canções de ótimo gosto – muitas delas brasileiras - , em alguns momentos ela parece competir com o próprio filme, chamando atenção demais para si e quebrando a imersão em vez de aprofundá-la. O maior ponto de debate, porém, está na ambição temática da obra. “Depois da Caçada” tenta dar conta de muitos assuntos simultaneamente: a cultura woke que se estabeleceu com força nas universidades, o movimento #MeToo, a cultura do cancelamento, disputas de poder, relações geracionais, gênero, raça, ética acadêmica e autoria intelectual. Tudo isso é colocado em ebulição, mas nem sempre plenamente desenvolvido. O roteiro de estreia de Nora Garrett é hábil em criar tensão e provocar desconforto, mas hesita quando se aproxima de conclusões mais contundentes. Ainda assim, talvez essa seja justamente a proposta do filme. Ao recusar respostas fáceis, ele transfere ao espectador o peso do julgamento. A verdade nunca se revela por completo; o que resta são narrativas concorrentes, afetadas por interesses, medos e convicções pessoais. Nesse sentido, “Depois da Caçada” não pretende solucionar o debate, mas expô-lo, funcionando como um espelho incômodo de um tempo em que certezas morais parecem cada vez mais frágeis. Ao final, não há veredicto possível e talvez esse seja seu maior problema: ao optar por uma ambiguidade radical ao tratar de um caso de assédio entre um homem cis branco em posição de poder e uma aluna negra homossexual, o filme caminha deliberadamente por um terreno perigoso, onde a tentativa de complexificar o debate pode também soar como uma reavaliação de violências que, para muitos, já não deveriam mais estar em discussão, correndo o risco de ser interpretado como omissão, julgamento precipitado ou relativização de violências reais.

26.12.25

"Oeste Outra Vez" - Erico Rassi (Brasil, 2023)

Sinopse:
No sertão de Goiás, Totó (Ângelo Antônio) e Durval (Babu Santana) são apaixonados pela mesma mulher. Incapazes de lidar com suas fragilidades, eles são abandonados por ela e voltam-se violentamente um contra o outro. Enquanto se enfrentam em um sertão precário e sem lei, outros personagens masculinos vão surgindo, todos eles tendo em comum algum tipo de frustração amorosa em seu passado. Em meio a tiroteios e emboscadas, uma crescente sensação de abandono aos poucos toma conta de todos eles.
Comentário: Erico Rassi (1972) é um roteirista, montador e diretor de cinema brasileiro. É dele o longa "Comeback: Um Matador Nunca se Aposenta" (2016). Ele também roteirizou e co-dirigiu o documentário “Resplendor” (2019) e as séries “Giramundo” e “Doçaria Brasileira”. "Oeste Outra Vez" (2024) é o primeiro filme que vejo dele.
Marcos Aurélio Ruy do site Vermelho nos diz que "Definitivamente o cinema brasileiro tem mostrado toda a diversidade cultural do país nas telonas. Além de viver um grande momento com grandes destaques em festivais pelo mundo afora. Mas nem todas as obras nacionais se destacam lá fora e, dessa forma, ganham prestígio por estas [paragens]. Em cartaz no [streaming], esse é o caso de 'Oeste Outra Vez' (2024), dirigido por Érico Rassi. Esse western brasileiro, muito influenciado pelo western espaguete, grande sucesso do cinema italiano nos anos 1960 e 1970, que já ironizava o conceito de heroísmo do faroeste estadunidense.
'Oeste Outra Vez' brinca com esses conceitos e inova ao mostrar um verdadeiro duelo entre dois homens pelo amor de uma mulher. Ambos contratam matadores de aluguel (os anti-heróis) para duelarem pela propriedade perdida. E qual a propriedade? A mulher que teria sido roubada de um pelo outro.
A dupla de matadores contatado por um deles, pergunta, alguém pode roubar a mulher de alguém? Fica a ideia de posse e por ficarem despossuídos, pode-se descrever como o crepúsculo dos machos ultrapassados.
Até porque a mulher abandona os dois se engalfinhando como se fossem donos de sua vida e de seu corpo. Tema atualíssimo no qual a mulher continua sendo o 'negro do mundo' como diria John Lennon, que neste ano faria 85 anos.
Estrelado por Ângelo Antônio (Totó), Rodger Rogério (Jerominho), Antônio Pitanga (Ermitão) e Babu Santana (Durval), o longa discute os efeitos da masculinidade tóxica, inclusive nos machos ditos alfa. Porque esse comportamento lhes causa grandes crises existenciais.
Não à toa, a obra é filmada em Goiás, em pleno Centro-Oeste. E apesar de ter ganhado o Kikito de Melhor Filme no Festival de Gramado deste ano, além de melhor fotografia, ao cargo de André Carvalheira e melhor ator-coadjuvante para Rodger Rogério, não ganhou grande destaque na mídia e dificilmente atingirá um público tão grandioso quanto filmes com mais divulgação e melhor distribuição.
A mulher em questão, aparece uma única vez deixando para trás os dois machos em briga, mas a sua presença é constante nos diálogos e nos 'duelos' entre um matador idoso e uma dupla de matadores jovens.
Filme complexo que inova ao mostrar a crise existencial de homens, que se perdem com a mulher livre, independente e que sabe o que quer. Os diálogos são contidos com um fino humor".
Além do longa ter vencido o Kikito de Melhor Longa-Metragem Brasileiro na 52ª edição do Festival de Cinema de Gramado, ele recebeu uma indicação ao Prêmio Grande Otelo de Melhor Direção.
O que disse a crítica 1: Inácio Araújo da Folha SP avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: "A ideia de fatalidade (...) - a lentidão da carroça, dos gestos, evoca mais a placidez de uma pintura bucólica do que a presença da morte - contrastará com o tiroteio quase burlesco que se segue, dada a falta de pontaria dos participantes. A trama segue, criando habilmente ideia do vazio dessa disputa, de modo que Erico Rassi significa aqui o vazio do machismo, que se sobrepõe à paixão e a encobre. Ou por outra: revela uma única paixão autêntica e bem narcisista, a da demonstração sem fim do machismo, da qual a mulher não é mais que um pretexto".
O que disse a crítica 2: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: "'Oeste Outra Vez' encanta pela conjunção rara de elementos, num equilíbrio impecável e muito pessoal de tons. O projeto combina mortes brutais com falas elegantes; o cenário árido do interior de Goiás com um som limpíssimo, como se os atores vivessem em cabines de gravação; o acerto de contas habitualmente voraz com uma abordagem isenta de pathos ou furor. Trata-se de uma masculinidade emasculada - espécie de gesto conceitual de Rassi, buscando descobrir o que resta ao western quando se retira a recompensa emocional, o heroísmo, a coragem e a potência destes homens".
O que eu achei: "Oeste Outra Vez” (2023) é um filme de ritmo deliberadamente lento, mas que recompensa o espectador com uma atmosfera densa e uma construção imagética de grande força. A fotografia é um dos seus maiores trunfos: as paisagens de São João d’Aliança, no coração do cerrado goiano e porta de entrada da Chapada dos Veadeiros, são filmadas com um rigor quase contemplativo, transformando o espaço em personagem. É um lugar onde aparentemente pouco acontece, mas onde o silêncio, a aridez e o isolamento dizem muito sobre os homens que ali vivem. Nesse sertão áspero, o filme acompanha Totó (Ângelo Antônio) e Durval (Babu Santana), dois homens marcados pelo abandono da mesma mulher. Incapazes de lidar com a própria fragilidade, eles convertem frustração em violência, orgulho ferido e ressentimento. Rassi constrói um retrato duro de uma masculinidade arcaica, em que a mulher surge como propriedade e a honra masculina se impõe como valor absoluto, ainda que isso leve à autodestruição. O resultado é um faroeste existencial à brasileira, em que o conflito não está apenas nos gestos, mas no silêncio e na paisagem que os envolve. Mesmo sem grandes reviravoltas narrativas, "Oeste Outra Vez" se sustenta pelo clima, pela força simbólica de seus personagens e pela maneira como transforma o sertão em espaço de confronto emocional. É um filme que exige paciência, mas entrega uma experiência consistente e visualmente poderosa, uma obra sólida que, com certeza, merece ser vista.

25.12.25

"O Natal do Bruno Aleixo" – João Moreira e Pedro Santo (Portugal, 2022)

Sinopse:
Na semana do Natal, Bruno Aleixo sofre um acidente e fica em coma. Sem razão para tal, os médicos acreditam que é psicológico, já que ele é um hater do Natal. Enquanto isso, Bruno revive natais traumáticos do passado, do presente e tem visões de outros natais no futuro.
Comentário: João Moreira (1980) é natural de Coimbra, é um humorista, roteirista e apresentador de televisão português. Pedro Santo (1980) também é roteirista e é o co-criador, juntamente com João Moreira, do famoso personagem português Bruno Aleixo, um ewok (uma criatura da franquia "Star Wars" que para não ter problemas de direitos autorais com a Lucasfilm se transformou numa mistura de urso de pelúcia e cachorro) ranzinza que apresenta o talk-show "O Programa do Aleixo" (2008-2012), juntamente com seus amigos o Homem do Bussaco, Busto (um busto de Napoleão), o réptil Renato Alexandre, Dr. Ribeiro e o porteiro Nelson. Assisti deles "O Filme do Bruno Aleixo" (2019).
O site Risi Flm Brasil publicou a seguinte "nota de intenções" dos autores: "É nossa pretensão partir-se aqui do celebrado arquétipo do 'Conto de Natal' de Dickens, tantas vezes adaptado nos mais diversos formatos artísticos, agora com Bruno Aleixo assumindo o papel de Ebenezer Scrooge [personagem principal desse conto datado de 1843, um rico, ganancioso e avarento homem que odeia o natal]. Instalando-se quase de imediato o conflito-base (na medida em que é estabelecida desde logo a existência de uma relação profundamente antagônica entre o personagem e o período natalício), serão, neste cenário, os sonhos de um Aleixo aparentemente em coma a guiarem-nos através de diversos Natais. E, aqui, será então esta dinâmica onírica que assumirá a função que habitualmente está consagrada aos três espíritos canônicos que visitam Scrooge.
Todavia, serão seis, e não três, os Natais visitados por Aleixo nos seus sonhos, com particular relevância para as consoadas passadas (na figura da infância, pré-adolescência e duas fases distintas da idade adulta), não deixando ainda assim de expor as também clássicas versões 'presente' e 'futura'. Esta viagem espelhará a evolução do vínculo do personagem Bruno Aleixo com o Natal, pretendendo-se refletir também sobre a própria transformação que as celebrações e costumes natalícios foram sofrendo ao longo dos anos. Deixando-se ainda a premonição do que poderão vir a ser os Natais futuros se determinadas circunstâncias se mantiverem. Os Natais de Aleixo, sim, mas, mais uma vez, nunca apenas de Aleixo.
Posto isto, é nosso propósito que Aleixo, fiel às idiossincrasias ou traços de personalidade que o personagem tem desenvolvido desde que foi criado em 2008, represente aqui algo mais do que a evolução da sua própria persona e da sua própria relação com o Natal. A proposta é que Aleixo, sendo sempre Aleixo, acabe por simbolizar também em larga medida um país e uma Portugalidade, inclusive uma Portugalidade que, em dado momento, estará mesmo para além das fronteiras físicas do país. E isto sem nunca deixar de, a um nível mais macro, retratar também determinadas tendências globais relativamente a quadras de natureza mais familiar como o Natal.
Neste sentido, a própria festividade será também um personagem determinante, vendo evoluir o seu paradigma de sonho para sonho; seja, e só a título de exemplo, pela centralidade crescente que a comida foi assumindo, pelas multíplices dinâmicas familiares e cerimoniais que se estabelecem nesse período ou até pelo papel quase-monopolístico que a tecnologia foi impondo passo a passo. Naturalmente, os sonhos-viagens aos diversos Natais passados, ao presente e ao futuro manifestar-se-ão através de estéticas distintas entre si, sendo que todas elas se afastarão também do tradicional traço 'Aleixístico'. Serão, assim, introduzidas novas corporizações visuais das personagens, bem como alguns desvios à composição narrativa do clássico campo/contra-campo em que este universo se tem vindo a apoiar desde a primeira hora.
Naturalmente, é também nosso propósito que a dinâmica estético-narrativa de cada Natal represente os períodos específicos em que se insere. De novo, e reforçamos, não só da vida de Aleixo, mas ainda de um povo. Por último, de referir o poder redentor que marca de forma indelével o arquétipo do 'Conto de Natal' e que pretendemos que também aqui faça a sua inevitável aparição. Sendo que, neste contexto, assistir-se-á a uma intercepção entre o caráter redentor desta narrativa clássica e o caráter absolutamente inabalável de Bruno Aleixo, figura até aqui pouco dada a uma regeneração tão plena como a aquela que temos visto ortodoxamente com Ebenezer Scrooge".
O que disse a crítica 1: Alysson Oliveira do Cineweb avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: " O maior diferencial do filme é que cada um dos Natais foi entregue a um ilustrador ou ilustradora. Assim, os segmentos e técnicas têm aspectos particulares. Joana Afonso, Rafael da Silva Hatadani, Jorge Ribeiro, Fábio Veras e Kachisou trazem suas assinaturas próprias, expandindo assim o universo de Aleixo, Bussaco, Busto, Renato Alexandre (um personagem inspirado no Monstro da Lagoa Negra), e os demais".
O que disse a crítica 2: Marcelo Müller do site Papo de Cinema avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Escreveu: "'O Natal do Bruno Aleixo' nos permite conhecer um pouco melhor a biografia do protagonista, pois passamos pela experiência brasileira da infância, testemunhamos a interação belicosa com os parentes da ex-esposa (...). De brinde, temos a sequência na casa do Dr. Ribeiro, em que Bruno Aleixo responde à altura as chateações do tio com a mesma doença de invisibilidade do amigo, mas que ficou opaco em virtude do tratamento experimental nos anos 1960. A escalada de absurdos é típica do personagem maluco, o centro de um universo cheio de coadjuvantes semelhantes no quesito peculiaridade. Estimular o sujeito em coma com histórias natalinas poderia ser terapêutico, mas apenas se o Natal fosse tão feliz e gregário como dita o senso comum demolido por Bruno Aleixo".
O que eu achei: "O Natal do Bruno Aleixo" (2022) é uma animação que não faz concessões ao espectador desavisado. Trata-se de um filme claramente pensado para iniciados, para quem já conhece o humor, a lógica interna e o universo peculiar de Bruno Aleixo, personagem criado em 2008 e que se tornou um fenômeno de culto em Portugal. O longa não perde tempo contextualizando nada: logo de início, Bruno sofre um acidente, entra em coma e passa a revisitar, em delírio, traumas e memórias de natais passados. A narrativa assume esse fluxo caótico sem pedir licença, confiando que o público já esteja familiarizado com seus códigos. Nesse percurso onírico e afetivamente torto, surgem os já conhecidos companheiros de Aleixo: o Homem do Bussaco, Busto, Renato Alexandre, Dr. Ribeiro e Nelson, todos funcionando como extensões da mente do protagonista e, ao mesmo tempo, como catalisadores do humor ácido e autoconsciente da obra. O filme alterna momentos de nonsense absoluto com pequenas doses de melancolia, revelando um Natal menos sentimental e mais desconfortável, fiel ao espírito da série. O resultado é uma animação que dificilmente passa despercebida: ou se entra completamente na proposta ou se rejeita de imediato. No meu caso, funciona muito bem: é hilário, irreverente e estranhamente coerente dentro da sua própria lógica. É divertido mas não é pra todo mundo.

22.12.25

“Copacabana Mon Amour” - Rogério Sganzerla (Brasil, 1970)

Sinopse:
Sônia Silk (Helena Ignez) trabalha como prostituta enquanto tenta virar cantora da Rádio Nacional. De tanto ouvir a mãe (Laura Galano) dizer que ela e o irmão (Otoniel Serra) são possuídos pelo demônio, Sônia procura um pai de santo (Joãozinho da Gomeia) para tentar quebrar o feitiço maligno que atua sobre os dois.
Comentário: Rogério Sganzerla (1946-2004) foi um cineasta, roteirista e produtor brasileiro. Sátira, absurdo, subversão narrativa e colagem foram marcas registradas de sua estética cinematográfica, que o tornou conhecido como um representante do Cinema Marginal, um movimento contracultural brasileiro dos anos 1960 e 1970. Ele foi fundador e figura central da Bel-Air Filmes, uma produtora/coletivo criada em 1970, no Rio de Janeiro, em parceria com Júlio Bressane e Helena Ignez. Na sua cinematografia constam filmes como “A Mulher de Todos” (1969), “Sem Essa, Aranha” (1970), “Tudo É Brasil” (1997) e “O Signo do Caos” (2003). Assisti dele a obra-prima "O Bandido da Luz Vermelha" (1968) e o documentário "Nem Tudo É Verdade" (1986). Desta vez vou conferir “Copacabana Mon Amour” (1970).
Isa Honório do site Hoje PR nos conta que “entre as favelas e a areia da praia mais famosa do mundo, e com um dos melhores loiros oxigenados do Brasil, o filme mostra o cinema nacional em todo o seu potencial.
Na história, a maravilhosa Helena Ignez volta às telonas na pele de Silvia Silk, que desfila entre a periferia onde mora e a calçada de Copacabana com seu icônico vestidinho vermelho. Enquanto sonha em ser cantora na Rádio Nacional, Silvia trabalha como garota de programa. Sua mãe (Laura Galano) acredita que tanto a protagonista, quanto seu irmão, um homem gay apaixonado pelo chefe, Sr. Grilo (Paulo Villaça), estão possuídos pelo demônio.
Não fez muito sentido. E nem vai fazer. Para combinar com os cenários psicodélicos do Rio de Janeiro de 50 anos atrás, o filme parece ser todo desfigurado. São cenas fora de ordem, frases repetidas – algumas clássicas como ‘tenho nojo de pobre’ – e acontecimentos absurdos em cena. Tudo com aquele jeitinho de direção de Sganzerla e seu Cinema Marginal, que domina a arte da sedução através da câmera.
Isso somado ao estado de conservação do filme, que não é dos melhores. Feito de forma independente pela produtora Belair, de Sganzerla, Helena e Júlio Bressane, o longa não foi lançado comercialmente na época (alô, Anos de Chumbo). Então, quando finalmente rolou a restauração dos negativos armazenados na Cinemateca Brasileira, as fitas de imagem e som estavam bem deterioradas. Uma pena. (...)
Outro símbolo de irreverência do filme é a trilha sonora. Gilberto Gil produziu a parada diretamente do exílio em Londres, sob encomenda do diretor. O destaque vai para a faixa ‘Mr. Sganzerla’, que toca várias e várias vezes. Entre esses e outros detalhes, ‘Copacabana Mon Amour’ é uma viagem. É um daqueles que você assiste e fica louco sem saber quando é para rir e quando é para levar a sério. E se faltam palavras minhas para descrever, empresto as de Sganzerla, o abacaxi-man: ‘É uma miscelânea alucinada de êxtases de todos os tipos. Uma novidade com câmera na mão em totalscope’”.
No elenco, além dos atores já citados, temos Lilian Lemmertz e Guará Rodrigues. A fotografia é de Renato Laclete e a montagem de Mair Tavares.
O que disse a crítica 1: Ahriel Spa do site Vertentes do Cinema avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Disse: “Sganzerla estava preocupado com outras coisas, muito além de seguir cartilhas de movimentos, grupos ou se prender a costumes estéticos. Ele era um antropófago, que conseguia como ninguém retratar nas suas imagens toda a loucura e tensão que emanava da cidade do Rio de Janeiro daquela época”.
O que disse a crítica 2: Bruno Andrade do site Contracampo também foi elogioso. Escreveu: “Um espírito inquieto, inconformado por simplesmente não ter outra opção, a câmera CinemaScope na mão que lança um olhar dos morros sobre a metrópole distante, os mesmos morros que adotam o cinema de Rogério Sganzerla (e que são em contrapartida adotados por ele) em ‘Sem Essa Aranha’ e este filme. Disso tudo surge uma pulsão, uma vontade-cinema que nada – a censura oficial (e não-oficial); a situação do país; o contexto geográfico, cultural e político – pode diminuir. ‘Copacabana Mon Amour’ é um filme-cinema decisivo como antes dele foram ‘Cidadão Kane’, ‘Uma Aventura na Martinica’, ‘Casa de Bambu’ e ‘Shadows’. Para sempre Belair, para sempre Sganzerla”.
O que eu achei: Assistir à “Copacabana Mon Amour” (1970) de Rogério Sganzerla foi uma experiência completamente fora da caixa. A sinopse dá a entender que existe um argumento - Sônia Silk (Helena Ignez) trabalha como prostituta enquanto tenta virar cantora da Rádio Nacional e, de tanto ouvir a mãe (Laura Galano) dizer que ela e o irmão (Otoniel Serra) são possuídos pelo demônio, ela procura um pai de santo (Joãozinho da Gomeia) para tentar quebrar o feitiço maligno que atua sobre os dois. Tudo isso será de fato mostrado, porém estamos falando de Cinema Marginal, então o resultado pode ser bem diferente do que você pode estar esperando. Luiz Santiago do site Plano Crítico nos conta que esse movimento é "fruto da exposição cinematográfica da contracultura dos anos 1960". Ele possui "uma forma de pensamento debochada, despreocupada, dada a paródias de gêneros, pessoas e grupos sociais, além de abordar situações grotescas, sujas, pornográficas, imorais, burlescas/carnavalescas e violentas". Segundo ele, "para os diretores do Cinema Marginal, a estética - em qualquer tipo de apuro - não era exatamente uma preocupação: os filmes de baixo orçamento (muitas vezes em 16mm e Super-8) e o tipo de abordagem 'maldita e underground' formavam a base de condições que esses diretores tinham para trabalhar". Com muito pouca grana, aliás. "A base trash na estética desses filmes, sua aproximação com os Filmes B de Hollywood e o trabalho na Boca do Lixo (no bairro da Luz, em São Paulo) desafiava aquilo que era o grande terror do Cinema Novo: a 'cópia' de Hollywood. Os udigrudis, no entanto, 'copiavam' gêneros (especialmente o policial) corrompendo-os, tornando-os quase irreconhecíveis, elevando à máxima potência aquilo que foi um dos temas da 3ª Fase do Cinema Novo: a antropofagia ligada ao Tropicalismo". É aqui que se inserem os filmes da Bel-Air Filmes, produtora de Júlio Bressane, Rogério Sganzerla e Helena Ignez (que interpreta Sônia Silk). A transgressora casa produziu sete filmes, todos dentro dos parâmetros do Cinema Marginal, em diferentes níveis de estranheza. Em "Copacabana Mon Amour" o áudio é terrível, muitas vezes desconexo. A qualidade da imagem muda entre colorido e preto e branco (filmava-se com o que se tinha a disposição), oras com foco oras sem, a luz muitas vezes é demais, às vezes de menos, com a história sendo contada de forma desconexa utilizando-se daquilo que o Cinema Marginal mais prezava: o mau gosto, o mal terminado, o sujo, o imoral e o excluído. Mais do que suscitar a simples dicotomia entre gostar ou não gostar, "Copacabana Mon Amour" se impõe como um dos experimentos mais radicais do cinema brasileiro. O filme expõe as favelas do Rio de Janeiro e a mística marginal do submundo de Copacabana filtradas por uma chanchada tropical delirante, suja e provocadora. Fuja para as montanhas se estiver à procura de um cinema 'bonitinho', bem-comportado ou confortável. E se jogue se estiver aberto a novas experiências, se for movido pela curiosidade histórica ou se, como todo cinéfilo de carteirinha, entende que o cinema também existe para desafiar, incomodar e expandir seus próprios limites. Atenção à trilha sonora de Gilberto Gil.

21.12.25

"Uma Batalha Após a Outra" - Paul Thomas Anderson (EUA, 2025)

Sinopse:
Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio) é um ex-revolucionário que viveu sua juventude como integrante de um grupo de guerrilha. Agora a sua fracassada vida o atinge em cheio quando seu maior inimigo, o Coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn), retorna e resolve sequestrar sua filha (Chase Infiniti). Desesperado, ele reúne seus antigos companheiros e embarca em um desafio no qual precisará correr contra o tempo para salvá-la.
Comentário: Paul Thomas Anderson (1970) é um cineasta norte-americano nomeado diversas vezes ao Oscar. Assisti dele os excelentes "Boogie Nights - Prazer sem Limites" (1997), "Magnólia" (1999), "O Mestre" (2012) e "Trama Fantasma" (2017) e os bons "Embriagado de Amor" (2001), "Sangue Negro" (2007), "Vício Inerente" (2014) e “Licorice Pizza” (2021). Desta vez vou conferir "Uma Batalha Após a Outra" (2025).
Paulinha Alves do site Canaltech nos conta que "Embora não seja totalmente baseado em um livro, o filme teve como principal inspiração o romance 'Vineland', uma ficção pós-moderna escrita pelo autor Thomas Pynchon, que se passa na Califórnia, Estados Unidos. Ambientada em 1984, ano da reeleição de Ronald Reagan, o livro é contado essencialmente em flashbacks, em que os personagens que viveram sua juventude durante os anos 1960 contam suas experiências sobre o espírito de rebelião da época.
Paul Thomas Anderson, que além de escrever também produziu e dirigiu o longa, colocou a essência da história como pano de fundo de 'Uma Batalha Após a Outra', criando uma trama independente, mas que conta com elementos do romance – especialmente a relação pai-filha.
Qual é a história do filme? 'Uma Batalha Após a Outra' conta a história de Bob Ferguson, um homem que durante sua juventude foi um feroz integrante de um grupo revolucionário. Embora viva agora uma vida apática, na qual se sente cada vez mais afundado em frustrações e tristezas, sua âncora ao mundo real é Willa, sua filha de 16 anos, fruto de um relacionamento que teve com outra jovem revolucionária.
Quando Bob acha que sua vida não pode ficar mais difícil, o pior inimigo de sua época de guerrilha, o Coronel Steven J. Lockjaw, retorna 16 anos depois e sequestra Willa, deixando o personagem completamente sem rumo.
Decidido a resgatar a jovem custe o que custar, o protagonista se reúne então com seu antigos colegas de equipe em uma missão bastante implacável, em que precisará correr contra o tempo para salvar a pessoa que mais ama no mundo.
Além de Leonardo DiCaprio no papel do ex-guerrilheiro, 'Uma Batalha Após a Outra' conta com Sean Penn como o arqui-inimigo do protagonista; Benício Del Toro como Sergio St. Carlos, cúmplice de Bob na missão de resgate; Teyana Taylor como Perfidia Beverly Hills, mãe de Willa; e Chase Infiniti, em sua estreia no cinema, como a jovem sequestrada. Fazem ainda parte do elenco do longa-metragem os atores Regina Hall, Alana Haim, Wood Harris e Tony Goldwyn".
O que disse a crítica 1: Katiúscia Vianna do site Adoro Cinema avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Disse: " O curioso é ver como o filme guarda bom espaço para humor, mesmo diante de uma crítica tão brutal em sua íntegra. Para começar, Leonardo DiCaprio dá (novamente!) uma interpretação fantástica de Bob - especialmente a partir do segundo ato, quando a situação vai perdendo o controle e vemos o personagem tentar o seu melhor para ajudar a filha, mas se dopou tanto em álcool e drogas que nem lembra mais qual é o código secreto do seu grupo revolucionário".
O que disse a crítica 2: Guilherme Jacobs do site Omelete avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "'Uma Batalha Após a Outra' encena seus ciclos de caos com um motivador até que simples de um pai e filha tentando se reunir. Boa parte do longa se preocupa com Pat e Willa lutando para não serem separados. Esse contraste, entre o escopo grandioso e a ameaça pessoal, confere ao filme um coração humano no qual podemos nos apegar em meio à bagunça, e valoriza a luta pelo futuro. Para Paul Thomas Anderson, quaisquer resquícios de esperança (...) estão na próxima geração; ou melhor dizendo, na próxima batalha".
O que eu achei: Trata-se de uma adaptação livre para o cinema de um livro do Thomas Pynchon chamado "Vineland". No livro o autor mostra um EUA da época de Reagan como um ambiente movido pela televisão, pelas drogas e com resquícios do movimento hippie. No filme, esse ambiente é reinterpretado atualizando os temas para o século XXI, inserindo na trama questões ligadas à imigração e à forma como agem as polícias. O extremismo também está lá, só que não se trata de um mero embate entre republicanos e democratas, mas sim de uma esquerda revolucionária, formada por homens que usam a luta armada para tentar mudar a situação e, uma direita formada por supremacistas brancos misóginos e xenófobos, composta por empresários e pelo exército, de perfil bem trumpista. Falando assim pode até parecer tratar-se de um filme panfletário, mas ele não é declaradamente um filme de esquerda nem muito menos de direita, pois mostra esses rebeldes como homens frágeis, despreparados e que podem fazer escolhas erradas nas suas vidas. No elenco masculino temos Leonardo DiCaprio no papel de um ex-guerrilheiro fracassado, Sean Penn como um militar embrutecido e fascista e Benício Del Toro como um mestre de artes marciais e líder comunitário. Dizer qual deles está melhor é impossível. Provavelmente serão indicados ao Oscar de Melhor Ator Principal e Coadjuvantes. No elenco feminino temos a cantora e dançarina Teyana Taylor no papel de uma ex-guerrilheira, a jovem Chase Infiniti no papel da filha do DiCaprio e Regina Hall no papel de Deandra, uma guerrilheira e melhor amiga da Teyana Taylor. Apesar dos nomes mais desconhecidos, as três atrizes são uma potência, não será nada espantoso alguma das três aparecer indicada à Melhor Atriz Coadjuvante. Quanto ao filme em si, ele compensa as 2h41m de duração que você não sente passar. Exige atenção, não dá pra ver mexendo no celular, é um filme inteligente, bem amarrado em suas tramas e subtramas, com muita ação e emoção, difícil desgrudar os olhos. Considerando os inúmeros prêmios que ele vem recebendo e as críticas especializadas quase unânimes a respeito das qualidades do longa, não seria um palpite infundado dizer que ele deverá levar vários Oscars em 2026. Com certeza aparecerá indicado à Melhor Filme, Direção, Roteiro Adaptado, Edição, Fotografia, Trilha Sonora, Som ou mesmo na nova categoria Escalação de Elenco. Imperdível.

17.12.25

"Homem x Abelha: A Batalha" - Rowan Atkinson & William Davies (Reino Unido, 2022)

Sinopse:
O recém-divorciado e azarado Trevor Bingley (Rowan Atkinson) está radiante por finalmente ter conseguido um emprego na House Sitters Deluxe, uma mansão de campo luxuosa e moderna. O novo funcionário é fascinado pelo lugar e parece mais do que preparado para cumprir suas primeiras tarefas, até que uma abelha persistente aparece para tirar sua paz. Conforme a pequena abelha começa a persegui-lo pela propriedade, Trevor vai perdendo a paciência e declara guerra contra o inseto.
Comentário: Trata-se de uma minissérie em 9 episódios com cerca de 10 a 19 minutos cada, que conta com o comediante Rowan Atkinson no papel principal.
Ritter Fan do site Plano Crítico nos conta que "Rowan Atkinson [interpreta] Trevor Bingley, um homem atrapalhado, como não poderia deixar de ser, mas também e talvez principalmente com problemas de controle de temperamento que, depois de divorciado e um tempo desempregado, começa a trabalhar como cuidador de casas em uma moderna mansão 'estilo Minecraft' repleta de caríssimos objetos de arte e automóveis de colecionador, além de uma cadela com alergia à noz, enquanto seus donos estão viajando. Se tudo isso já não fosse o suficiente para preparar o espectador para o tipo de comédia pastelão que Atkinson sempre soube muito bem fazer, eis que uma teimosa e 'imortal' abelha entra na equação para enervar Bingley até muito além de seu ponto de ebulição.
Essa é, portanto, a prosaica premissa de 'Homem x Abelha: A Batalha', com seu título explicando tudo o que precisamos saber e com Atkinson pegando emprestado – ainda que de longe – a base narrativa de 'Meu Tio', o clássico de Jacques Tati e seu Monsieur Hulot, por sua vez a maior inspiração para o Mr. Bean, talvez sua mais famosa criação.
A casa exageradamente moderna é onipresente como no filme de 1958, mas sua função, aqui, é bem mais simples, sem pretensões satíricas sobre a modernidade em si e sobre a mecanização da sociedade francesa, com a mansão sendo usada, unicamente, como a arena ideal para Bingley soltar toda sua fúria destrutiva contra a solitária abelha de computação gráfica (...) que não desiste de importuná-lo desde o primeiro segundo em que o personagem aparece em tela, com direito até mesmo a algumas cenas que enxergarmos sob seu ponto de vista.
A talvez inesperada estrutura de série com curtíssimos episódios, o que resulta basicamente em um longa-metragem de 108 minutos, é bem-vinda, pois compartimentaliza os esquetes, minimizando a impressão de repetição, mesmo que o espectador decida assistir tudo de uma só vez, o que provavelmente acontecerá quase sempre. O ponto é que a cadência de 'começo, meio e fim' de cada capítulo ou esquete cria aquela gostosa sensação de saciamento todas as nove vezes, estabelecendo um bom ritmo narrativo que atrasa o desgaste da fórmula, segurando a série até seu bem redondo (...) final.
Aliás, falando em final, outro artifício narrativo bem usado é o de enquadramento, com todos os episódios passando-se como se fossem flashbacks a partir da cena inicial em que vemos Trevor Bingley ser condenado por variados crimes de destruição de propriedade que chegam até a ser vistos em breves flashes enquanto a juíza os lista e com o último episódio retornando a esse início para, então, encerrar a história.
Com isso, 'Homem x Abelha: A Batalha' é construído em cima de algo que muita gente reclama em filmes e séries, mas que eu considero como positivo, se bem feito, claro: a previsibilidade. Já de início, o espectador sabe o que acontecerá com a casa e os objetos de valor lá contidos. Além disso, cada momento de humor é telegrafado em detalhes, como por exemplo quando o dono da casa diz que os códigos para ativar e desativar o sistema de alarme são os anos de batalhas famosas que só ele conhece ou quando a dona deixa bem claro que Cupcake, a cadela, tem a tal alergia e que só pode comer a comida especial dela. Tudo é entregue de bandeja e de antemão e, mesmo assim, tudo o que acontece continua sendo muito engraçado graças ao timing cômico de Atkinson e à cuidadosa construção de cada cena que começa a criar aquela aflição no espectador, levando-o a visualizar tudo de antemão e a rir antes mesmo do momento destrutivo ou doloroso acontecer".
O que eu achei: “Homem x Abelha: A Batalha” (2022) assume sem pudor a vocação para o besteirol e é justamente aí que encontra sua força. A premissa é mínima: um homem, uma casa de luxo e uma abelha transformada em inimiga mortal, mas a minissérie sabe explorar esse ponto de partida com inteligência cômica. Os episódios curtos, quase esquetes encadeadas, apostam no exagero físico, na repetição e na escalada do caos, criando um humor simples, direto e surpreendentemente eficaz. Grande parte do riso vem do timing cômico impecável de Rowan Atkinson, que prova mais uma vez ser um mestre da comédia física. Cada olhar, pausa ou movimento corporal é calculado para arrancar gargalhadas, mesmo quando a situação beira o absurdo completo. É um humor que não pretende ser sofisticado nem profundo, mas cumpre com louvor sua proposta: divertir sem culpa. Como besteirol assumido, a série funciona muito bem: leve, boba na medida certa e genuinamente engraçada. Pode reunir a família - crianças, adultos e idosos - e apertar o play que a diversão é garantida.

15.12.25

“Os Homens Preferem as Loiras” - Howard Hawks (EUA, 1953)

Sinopse:
Lorelei Lee (Marilyn Monroe) é uma bela dançarina de cabaré que está noiva do rico Gus Esmond (Tommy Noonan), para a desaprovação do pai de Gus, o Sr. Esmond (Taylor Holmes). Sr. Esmond acredita que Lorelei esteja atrás do seu dinheiro. Quando Lorelei vai num cruzeiro acompanhada apenas pela sua melhor amiga Dorothy (Jane Russell), o Sr. Esmond contrata Ernie Malone (Elliott Reid), um detetive particular, para segui-la e o deixar saber de qualquer comportamento questionável que a desqualificaria para o casamento.
Comentário: Trata-se do filme número 81 da lista dos 100 essenciais elaborada pela Revista Bravo! em 2007. A matéria diz: “Duas amigas, Lorelei Lee (Marilyn Monroe) e Dorothy Shaw (Jane Russell), embarcam num cruzeiro rumo a Europa à caça de um marido rico. A loira é louca por diamantes; a morena, por músculos. Por meio da história das garotas, o filme deixa subentendido um ideal de liberação feminina: nessa trama, são os homens que - movidos pelo desejo - ocupam o lugar de meros objetos, gravitando em torno das protagonistas. Em sua extensa carreira, o diretor Howard Hawks transitou entre vários gêneros, do filme de gangster ao antibélico, das comédias malucas aos faroestes clássicos, do noir aos épicos históricos e às fitas de aventura. Além da versatilidade, o que mais se destaca nos longas de Hawks é a presença, mesmo em universos aparentemente tão heterogêneos, de uma visão de mundo pessoal, de um olhar particular que põe em destaque os mecanismos morais que regem os homens (e as mulheres). Foi essa unidade sobre a profusão de gêneros que levou os críticos franceses (entre os quais, os futuros cineastas Francois Truffaut e Jean-Luc Godard) a incluir o diretor em sua 'política dos autores', um modo de apontar que, mesmo no regime industrial de Hollywood, alguns artistas impunham personalidade em seus trabalhos por meio de coerência interna entre estilos e temas. A fórmula se aplica com perfeição a 'Os Homens Preferem as Loiras', comédia musical marcada por cenas antológicas entre as quais a que imortalizou Marilyn Monroe, quando canta 'Diamonds Are a Girl's Best Friend' descendo uma escadaria cercada de dançarinos".
O que eu achei: Prosseguindo na minha saga de assistir aos 100 filmes considerados essenciais pela Revista Bravo!, desta vez vi “Os Homens Preferem as Loiras” (1953) do diretor Howard Hawks. Trata-se de uma adaptação do romance "Gentlemen Prefer Blondes: The Intimate Diary of a Professional Lady" (Os Homens Preferem as Loiras: O Diário Íntimo de uma Dama Profissional) de Anita Loos lançado em 1925, que conta a história de duas dançarinas de cabaré – uma loira e uma morena - em busca de maridos. A loira procurando um "daddie" com diamantes (atualmente chamaríamos de 'sugar daddy') e a morena procurando músculos ou mesmo o amor. O livro foi um best-seller de sucesso, traduzido para vários idiomas, transformado em peça de teatro e filme mudo, hoje perdido. Essa adaptação datada de 1953 feita pelo Howard Hawks foi uma versão atualizada do romance, lançado como um musical, tendo Marilyn Monroe no papel da loira e Jane Russell no papel da morena. Se em 1925 ou mesmo em 1953 essa abordagem sobre as mulheres era algo aceito, eu creio que hoje Howard Hawks seria cancelado. Pra começar o título do livro e consequentemente do filme "Os Homens Preferem as Loiras" não tem nenhuma relação com a história contada. Frente a esse título tudo o que eu esperava era que a história terminasse com a loira se casando e a morena sendo preterida, mas não é o que ocorre, na verdade ambas finalizam o filme com suas vidas amorosas resolvidas a contento. Então o título me pareceu mais marqueteiro do que relacionado ao conteúdo. Outro problema no filme é a forma como a loira é retratada, pois além de interesseira (ok isso pode ser a personagem), ela é extremamente lenta de raciocínio e ignorante, contribuindo sobremaneira para a ideia de que se for loira é burra. Pode-se dizer que o filme foi um grande disseminador, à época, desse preconceito concretado no imaginário universal em forma de estereótipo, já que a morena (aquela que o título sugere que os homens não preferem) é esperta e bastante inteligente. Dizem que o longa prejudicou não só a imagem da mulher loira como um todo, mas interferiu sobremaneira na carreira da própria Marilyn Monroe cujo personagem encarnou nela de tal forma que passaram a chamá-la para interpretar papéis de loiras burras diversas vezes. Com relação ao filme propriamente dito, se não fosse a ótica estereotipada, seria mais uma daquelas comédias screwball típicas do Howard Hawks com diálogos rápidos e espirituosos, situações absurdas, casais incompatíveis, personagens excêntricos e uma história romântica que se desenvolve em meio ao caos. Tem bom elenco, lindas cores (Technicolor), tem dança e canto, um figurino de primeira linha, mas infelizmente é um filme que não envelheceu bem. Desta vez eu passo.